terminou de ler Admirável Mundo Novo 🌕🌕🌕🌕🌕
Admirável Mundo Novo é um dos melhores livros já escritos sobre a modernidade não por ser uma distopia, mas porque o que o protagonista identifica como distopia é o melhor dos mundo para todos os outros, porque o protagonista é confrontado com a ideia de um mundo que "precisa ser salvo", mas não quer. Aparte a regressão epigenética, o mundo fordista é um sonho de consumo universal. Que direito Bernard tem de impor a dor e o sofrimento necessárias a essa vida do espírito que ele aspira à população? O mundo fordista resolveu o Mal Estar da Cultura/Civilização. Há conquista maior que essa?
A noção que vamos encontrar em Fernando Pessoa de que
> Os Deuses vendem quando dão.
> Compra-se a glória com desgraça.
> Ai dos felizes, porque são
> Só o que passa!
ou em Cecília Meireles de que existe "o modelo justo: / sonho, dor, vitória e graça." são postas à prova. Em um mundo em que meia dúzia de acadêmicos ficam falando da importância de valores iluministas abstratos como democracia e igualdade, defendendo a universalização dos rigores e limitações do pensamento científico, os custos de um mundo desencantado, os pedágios de uma arte inacessível, Huxley nos lembra que o que Baudrillard expressou, com primor, sobre as "massas": "O que se lhes dá é sentido e elas querem espetáculo.".
Não me entenda mal, Huxley é completamente comprometido com o sentido, o mundo observado por Bernard e que entra em crise com John, "o Selvagem" é descrito em todo o horror que ele é capaz de provocar. A Ilha, livro irmão que se anuncia como uma utopia, descreve um mundo diametralmente oposto. Mas Huxley faz questão de descrever o lado sedutor desse horror. A facilidade de uma vida completamente prescrita, com garantias de felicidade. Encerra o livro com um diálogo pragmático, cínico, sobre como qualquer mudança seria impossível, porque a alternativa que se apresenta é abandonar a garantia da felicidade e abraçar a dor inerente à vida, e quem em sã consciência, abraçaria a dor?
2
author:
Aldous Huxley
translator:
Lino Vallandro
/
Vidal de Oliveira
publishing house:
Biblioteca Azul
2014
- 3
Uma sociedade inteiramente organizada segundo princípios científicos, na qual a mera menção das antiquadas palavras “pai” e “mãe” produzem repugnância. Um mundo de pessoas programadas em laboratório, e adestradas para cumprir seu papel numa sociedade de castas biologicamente definidas já no nascimento. Um mundo no qual a literatura, a música e o cinema só têm a função de solidificar o espírito de conformismo. Um universo que louva o avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série, a uniformidade, e que idolatra Henry Ford. Essa é a visão desenvolvida no clarividente romance distópico de Aldous Huxley, que ao lado de 1984, de George Orwell, constituem os exemplos mais marcantes, na esfera literária, da tematização de estados autoritários. Se o livro de Orwell criticava acidamente os governos totalitários de esquerda e de direita, o terror do stalinismo e a barbárie do nazifascismo, em Huxley o objeto é a sociedade capitalista, industrial e tecnológica, em que a racionalidade se tornou a nova religião, em que a ciência é o novo ídolo, um mundo no qual a experiência do sujeito não parece mais fazer nenhum sentido, e no qual a obra de Shakespeare adquire tons revolucionários. Entretanto, o moderno clássico de Huxley não é um mero exercício de futurismo ou de ficção científica. Trata-se, o que é mais grave, de um olhar agudo acerca das potencialidades autoritárias do próprio mundo em que vivemos. Como um alerta de que, ao não se preservarem os valores da civilização humanista, o que nos aguarda não é o róseo paraíso iluminista da liberdade, mas os grilhões de um admirável mundo novo.