Kamen Rider Black Sun (2022)

Publicado originalmente no Filmow, em 12/11/2022.

Se você espera ver nada menos que um tokusatsu extremamente fiel ao de 1987, com um monstro por episódio, transformação coreografada e terminando sempre com um rider kick ou rider punch, recomendo fortemente que você (re)assista... A série de 1987.

Agora, se você não encara a franquia de maneira dogmática e está disposto a fazer concessões, talvez seja uma grata surpresa como foi para mim.

Trata-se de uma comemoração de 50 anos da franquia Kamen Rider e de 35 anos de Kamen Rider Black (ou Black Kamen Rider, como ficou mais conhecido no Brasil). Mas a proposta aqui é um pouco diferente, menos episódios (10 contra 51), com maior duração (45 ao invés de 25 minutos) e o principal: narrativa e classificação etária diferentes.

A impressão é a de que Black Sun é voltada aos fãs da série de 1987, mas com a mentalidade e a maturidade que possuem agora em 2022 e não para jovens de 12 anos, como antes. Aliás, a série possui classificação +18. Isso fica bem claro com a violência explícita, o famoso "gore" dos filmes de trash e de horror. Assim como nos temas político-sociais discutidos.

É uma narrativa mais lenta, talvez até arrastada, que dá mais ênfase nas revelações a conta-gotas da trama do que pela ação. E talvez por isso, quando esta última vem à tona, cause tanto impacto. Há também o uso de, pelo menos, duas linhas temporais que remontam à vida pregressa de alguns personagens e organizações.

Também é notável como a série mostra as características positivas e negativas de cada um dos personagens, fugindo do maniqueísmo batido, deixando claro que a classificação indicativa não se resume ao "gore".

No quesito referências, além daquelas da própria franquia (recomendo que não vejam trailers e afins, para não estragar ótimas surpresas), identifiquei também outras. Citarei apenas as obras para não dar spoiler de outros filmes, séries e livros:

  • Corra;
  • Expresso do Amanhã;
  • Soylent Green;
  • Distrito 9;
  • Estação Perdido (China Méville);
  • entre outros.

Há também referências a eventos históricos, antigos e recentes.

Quanto aos efeitos visuais / especiais, talvez cause um certo estranhamento, principalmente nas fantasias e armaduras. Mas para quem consegue abstrair isso e encarar como algo mais representativo e menos "realista", irá tirar bom proveito. Os eventos e conflitos são bem pesados e deixam uma atmosfera bem tensa na maior parte do tempo (o que, para mim, não permitiu que a série caísse num tom de galhofa).

O que deixou a desejar mesmo foi a trilha sonora. O tema principal, repetido à exaustão, soa um tanto enjoativo. Já a sonoplastia, em que pese a falta de alguns efeitos marcantes como os da série antiga, traz a parte grotesca bem característica dos filmes de body horror, como aqueles do diretor David Cronenberg.

Vale destacar também o roteiro. Ainda que o enredo seja um tanto confuso, percebemos que várias pontas soltas vão sendo amarradas aos poucos. Valorizando tudo aquilo que é construído nas partes mais "arrastadas". É um recurso que estou mais acostumado a ver no Cinema, mas que irá presentear aqueles que prestam atenção nos detalhes mais sutis.

Minha intenção era assistir de forma mais espaçada. Mas os últimos episódios empolgam bastante. Para quem assistiu a série de 1987 e gosta de nostalgia, há uma bela homenagem que será facilmente reconhecida (fora os easter eggs espalhados).

Kamen Rider Black Sun é bem diferente de Kamen Rider Black em sua estrutura narrativa, mas é bem satisfatória para quem quer ver algo inovador e atual; não apenas um "fan service". Recomendo aos fãs de ficção científica com teor mais "biológico".