Zélia Gattai — Author (2)
Senhora Dona do Baile [Book] Goodreads
author: Zélia Gattai publishing house: Record 2007
Relato dos anos de exílio que Zélia Gattai e Jorge Amado passaram na Europa, Senhora dona do baile nos oferece, sob o disfarce da inocência, um vigoroso retrato do pós-guerra. A Guerra Fria racha o mundo ao meio, transformando as diferenças intelectuais e políticas em graves inimizades. São anos tensos, que Zélia fisga com agilidade incomum.

Publicado originalmente em 1984, o livro tem início em 1948, quando Zélia e João Jorge, então com quatro meses, embarcam rumo à Europa para se juntar a Jorge Amado, obrigado a fugir às pressas do Brasil depois de ter seu mandato de deputado federal cassado. Zélia adota, aqui, o papel que mais lhe agrada: o de discreta, mas meticulosa, observadora do real. Autêntica repórter, não deixa escapar nada: a dolorosa travessia do Atlântico, a saudade imensa do lar, as precárias viagens de avião em meio a rigorosas nevascas, a destruição da Europa do Leste, os congressos e compromissos de Jorge, e a convivência com personalidades como Picasso, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Marc Chagall e muitos outros.

Comovente é o modo como Zélia também privilegia as pequenas experiências e surpresas do dia a dia. Sua alma esquerdista não exclui nem mesmo a desconfiança em relação à seriedade excessiva e ao dogmatismo. Está sempre pronta para rir de si e desconfiar das próprias crenças. O casal se emociona quando, em um museu soviético, vê o berço em que Joseph Stálin dormiu. Esperta, Zélia imediatamente tempera a emoção com uma pitada de ironia, ciente de que é nas frestas do real que a verdade se esconde.

Submerso em um pesado casaco de pele, comprado em Moscou e apelidado de Encouraçado Potenkin, Jorge Amado não afasta sua atenção da mulher um só minuto. Seu olhar secreto zela pela narrativa. Com sua voz altiva e singular e sem medo de ser ofuscada pela presença do marido, Zélia narra o cotidiano do casal na Europa em histórias engraçadas e tocantes, neste livro que é considerado um dos mais importantes de sua carreira.
Anarquistas, graças a Deus [Book] Goodreads
author: Zélia Gattai publishing house: Companhia das Letras 2009 - 3
Publicado em 1979 e transformado em minissérie da rede Globo em 1984, Anarquistas, graças a Deus é o livro de estréia de Zélia Gattai e seu primeiro grande sucesso.

Filha de anarquistas chegados de Florença, por parte do pai Ernesto, e de católicos originários do Vêneto, da parte da mãe Angelina, a escritora trazia no sangue o calor de seus livros. Trinta e quatro anos depois de se casar com Jorge Amado, a sempre apaixonada Zélia abandona a posição de coadjuvante no mundo literário e experimenta a própria voz para contar a saga de sua família.

É assim que ficamos conhecendo a intrépida aventura dos imigrantes italianos em busca da terra de sonhos, e o percurso interior da pequena Zélia na capital paulista — uma menina para quem a vida, mesmo nos momentos mais adversos ou indecifráveis, nunca perdeu o encanto. A determinação de seu Ernesto e a paixão pelos automóveis, a convivência diária com os irmãos e dona Angelina, os sábios conselhos da babá Maria Negra, as idas ao cinema, ao circo e à escola, as viagens em grupo, o avanço da cidade e da política — nestas crônicas familiares, vida e imaginação se embaralham, tendo como pano de fundo um Brasil que se moderniza sem, contudo, perder a magia.

Exímia contadora de histórias, Zélia as transforma em instrumento privilegiado para o resgate da memória afetiva. Foi Jorge Amado quem, um dia, lendo um conto de qualidade duvidosa que Zélia rascunhava, pescou essa veia documental. Apontou-lhe o caminho e mostrou que ela se alimentava de sua rica ascendência familiar. Surge assim a Zélia memorialista, para quem a literatura provém não tanto da invenção, mas do trato apurado da memória e do desfiar cuidadoso, mas sem melindres, da intimidade.

Em suas mãos, a literatura se torna, mais que confissão, auscultação do mundo. É tendência para o registro e o testemunho, que cimentam não só um estilo quase clínico de observar a existência, mas uma maneira de existir. Pois é da persistência do espanto que Zélia, em resumo, trata. Se Jorge Amado foi uma espécie de biógrafo involuntário do Brasil, Zélia Gattai se afirma como a grande narradora de nossa história sentimental.